É sempre outono na migração

10,00

 

O livro contempla 26 poemas diaspóricos através de um olhar latinoamericano.

48 páginas
ISBN: 978-87-970491-5-0

Description

Primeira folha

Após quinze outonos de migração, seria um exercício desafiador priorizar os espaços daquelas duas malas, que outrora me acompanharam na travessia esverdeada do além-mar. Já no coração se encaixam mundos outrora inimagináveis. Aquelas malas, agora a mim incorporadas, induzem pessoas a me perguntarem “de onde você vem?”, ainda que eu esteja em casa. Os caminhos que não nos ensinaram a andar são os que tentam-nos impor limites.

Depois de tantos outonos, o país natal e o residente tornam-se territórios imaginários de alquimia, campos de nostalgia e ousadia, onde o lar doce lar é sempre agridoce. O sal da praia, trazido na pele, ainda derrete o gelo do ano todo, mas já não tenho os vestidos que ainda me vestem, e a firmeza do “até mais ver” ecoa lentamente como um “adeus” no sotaque translinguístico.

De outono a outono, as leis do país residente tentam forçosamente dançar o tango da migração, mas conseguem, no máximo, saltitar uma coreografia básica de aeróbica. O julgamento de línguas, que desconhecem a minha, só amplia o meu discurso, e a água da torneira  só aumenta a minha sede de justiça social.

Assim, passados tantos outonos, o barulho do vento em quaisquer estações não é mais ameaçador, senão motivador, pois na migração é sempre outono: preparação para o inverno, todavia sempre à espera da primavera.

Additional information

Weight 0.130 kg
Dimensions 21 × 15 × 1 cm